PRA LER À NOITE…

INTRO…

Foi na tranquilidade da noite que ela deu PLAY pela primeira vez no novo álbum de uma banda que sempre acompanhou com o coração.
Dar ouvidos ao som de seu amado ANATHEMA na solidão escura de seu quarto já é um RITUAL que tem mais ou menos dez anos de vida…
De frente pra janela do quarto, estava tudo preparado para finalmente matar a sede de mais ANATHEMA, que não lançava nada oficial desde 2003.
A identificação com a banda é tão grande, que não era só música que ela iria ouvir, era como se finalmente fosse ter notícias de grandes amigos com quem não conversava há anos!

“WE´RE HERE BECAUSE WE´RE HERE” já avisa com título direto que quem achava que os maravilhosos britânicos estavam fora de cena, estavam bem enganados! E exatamente por ter uma expectativa enorme nesse reencontro com coisas novas é que essa resenha, adianto, não poderia ser mais incomum…

MUSICANOID NO PAÍS DAS MINHAS PIRAS…

Aquele movimento simples de apertar o gasto botão do PLAY teve efeitos inimagináveis até então…

1.Ao som das primeiras notas de THIN AIR, ela foi abrir a janela, pra deixar entrar o cheiro do ar noturno e enxergar melhor as estrelas e o contorno das nuvens que emolduravam um céu bem nublado, mas antes percebeu que no vidro embaçado tinha uma marca, um risco, que parecia um número 1 rabiscado com o dedo. Ela não se lembrava de ter feito isso, e foi passar a mão por cima dele pra limpá-lo. Quando ouviu VINCE CAVANAGH cantar “Love is free”, sem se dar conta, já estava imersa num outro lugar, que devia ser a passagem para o mundo de ANATHEMA! Era um cenário bonito, e completamente deserto.

Vince Cavanagh...é tudo culpa sua! 🙂

De frente pra um enorme lago que mais parecia um espelho e ao seu redor apenas um gramado que cobria o cenário à perder de vista, ela ficou deslumbrada com o novo céu, que era certamente o da Aurora Boreal que ela sempre sonhou em ver!

sem comentários...

Tons de roxo passeavam pelo céu na mesma velocidade das baquetas de JOHN DOUGLAS e ela não sabia o que estava faznedo ali ainda, mas no momento em que ouviu “All that I know is I love you”, ela começou a entender que aquele portal era, na verdade, pra um mundo todo seu… E aí, tudo mudou com a água e o gramado se movimentando como se tivessem vida própria.

John Douglas, o cara das baquetas..

Ela sorriu pensando que devia estar maluca e assim que a guitarra de DANNY CAVANAGH começou a pegar mais pesado, ela percebeu que a vida da água e da grama era o vento de sua mente agitada… Com os cabelos batendo no rosto, ela teve tempo de perceber caídas na beira do lado duas chaves diferentes unidas por uma argola. Segurou-as e ao ouvir
“You´re just a whisper away”, seguida pelos ecos do “love” ao final da música ela teve certeza de que ouvia também, os ecos de seus pensamentos…

Danny, my guitar hero...

Começou a procurar qualquer coisa que se parecesse com uma porta naquele cenário ermo, porque certamente na mudança do clima ao seu redor, ela precisaria de uma entrada pra algum lugar.

“A Alice no país das maravilhas perseguindo um coelho branco não passou por isso!”, pensou…

Já do outro lado do lago, uma porta embaixo de um morro, parecia a solução. Correu até ela, tentou uma chave, e depois a outra. Entrou a porta emperrou atrás de si.

2. O teclado cheio de adrenalina de SUMMER NIGHT HORIZON a fez entender que a calmaria daquela paisagem havia acabado. E muito rápido. Ouvia o vento virado em tornado cantando

“Moonlight´s pale embrace to know the space between us…”

Ela caiu no chão, abraçou as próprias pernas, sem ideia de como sair dali! Sentada sob pedras, o vento lá fora dançava com tanta intensidade que parecia desafiá-la a ir encará-lo.

“Dreamlight, dreamlight comes in waves, the waves within us…”

Uma fogueira surgiu queimando uns pedaços de madeira no centro daquele lugar, que agora com luz, ela via que era um quarto vazio e pequeno. Com pavor nos olhos, ela viu um homem, de olhos e cabelos enormes a olhá-la com calma, sentado ao lado da fogueira. Talvez esperasse a pergunta
inevitável que veio a seguir:

– Que-quem é você????
– Me chame de Número Dois – respondeu aquele homem bizarro de roupas acinzentadas, e ela podia jurar que seus olhos eram da mesma cor.
– Hã??? Responda a pergunta, por favor!
– Já respondi.
– O quê? Teu nome é Número Dois?
– Sim, mas pra você pode ser só Dois, assim está bem.

Agora as pancadas no teclado eram como fortes pancadas no estômago, e o ritmo incansável da música era o sangue correndo ligeiro pelas veias…

– Ok, estou louca mesmo, é isso??? – foi tudo que ela conseguiu dizer…
– Realmente, me diga você… Só estou aqui porque você quer que eu esteja…
– Como assim??? – com o coração na boca.
– O quê houve? O quê você tem a temer, afinal?

Aaah, o frio na espinha que ela não queria sentir… Se levantou depressa e correu em direção à porta.

– Não adianta correr… como você vai correr pra fora de si mesma?

O vento continuava num turbilhão lá fora, batendo na porta e pedindo pra entrar.

“Flyin in the dream so high, feel so alive,
The world is like a truth in your eyes”
, se acalmou a música, no melodioso teclado de LES SMITH. Ela conseguiu respirar fundo, num fôlego pra sair dali, mas o ritmo acelerado voltou e o vento ameaçava arrancar a porta.

LES SMITH, the keyboard master...

– O quê eu faço??? Como eu saio daqui?
– Só você pode saber, foi você que criou isso tudo, porque resolveu ouvir ANATHEMA!
– Não pode ser! Esse vento não pára mais!! Tenho que parar a música, é isso!!
– Sinto muito…a música foi um catalizador pra isso tudo, não tem mais volta…e o vento é seu, são as perguntas mas…cadê as respostas?
Então pelo menos me diz como abrir a porta!
– Uma chave pra entrar, outra pra sair…- falou sem pressa.
– Tenho q ir.


Num impulso desesperado, ela saiu e foi sugada para o meio do tornado sem dó.

“In blood red sky, mighty sky, oceans rise, worlds colide, to know the space between us, space between us, the space between us…”, cantava a música. As lágrimas ardiam no rosto
enquanto ela desistiu de lutar contra o turbilhão que a engoliu. Pensamentos colidiam um contra o outro, e explodiam na certeza do que era aquilo tudo… Um sonho feito de música se tornou uma alucinação que não poderia ser mais lúcida e essa confirmação parece que foi o que bastou pro tornado cuspi-la no chão, que agora destruído e revirado, não era mais que um árido deserto.

Com a cara na poeira, ela lembrou do quanto ANATHEMA sempre lhe foi visceral, dotado de arrancar emoções que muitas vezes ela não queria admitir que estavam ali, como um desfile de verdades enfileiradas, que sem aqueles sons, era mais fácil de esconder…

Molhada, surrada, de cabelo revirado, ela teve condições de se virar pra Lua cheia que a encarava pra ouvir um final diferente…

“Moonlight´s pale embrace…there´s NO space between us, NO space between us”.

Lágrimas secas no rosto sujo, cor de terra, ela se tocou que aquele delírio era pra esfregar na cara, feito poeira e o vento que lhe estapeou que ela era só uma garota com medo… Exausta, apagou sobre o cenário bagunçado da própria mente, que não a assustava mais… não sem antes derramar mais um pensamento:

-É ANATHEMA, bom trabalho…

Acordou no silêncio do seu quarto escuro, num alívio de imaginar que aquilo não passou de um pesadelo muito, muito real. Num movimento, tentou acender a luz de seu abajur, sem sucesso. Levantou-se e tentou o interruptor da luz do teto, e ainda nada. Foi abrir a porta, mas ela estava trancada. Bateu na porta, gritou por ajuda, e ninguém respondeu.

-Só pode ser brincadeiraaa!!! Que droga é essa de novo??? – gritou. A janela, também não ajudou. Do lado da janela, na tela de sua pequena televisão, um número e um pedido escritos: ” 3 ME ASSISTA”.

– Ah não! De novo não!!!

Justo agora que ela já tinha afogado confortavelmente os pensamentos indesejados no travesseiro da cama, aquilo parecia um convite pra começar tudo de novo! Tentar derrubar a porta só fez barulho e gritar pra ninguém só gastou energia… (Lembrou do biscoito da Alice dizendo “Me coma” com o lance escrito na TV? Pois é, ela também!)

Maldito LEWIS CARROL… – resmungou, falando do autor de sua história quase-infantil favorita. Ela lembrou também de Dois falando que não tem volta, então…

– Ei!! Espera aí…O 1 na janela; o Dois atrás daquela porta e agora o 3 na Tv… E cada um a cada música…ah não…quantas músicas tem o álbum mesmo??? – não conseguia lembrar…

Ela se tocou que na verdade, tudo seria um enorme sonho, alucinação ou delírio (escolha sua palavra favorita) até a última música! E que para ouvir cada música, ela teria que encontrar seus números…

– Aaah ANATHEMA…você me pegou de jeito dessa vez…- se acalmou enquanto puxava o botão da TV, como quem está prestes a detonar uma bomba.

Ao invés da bomba, ouviu um piano mais do que perfeito começar DREAMING LIGHT. Na tela da tv, foi como se tivessem lhe roubado da mente as melhores cenas de sua vida… Uma história bonita começou a passar e a fraqueza nas pernas pediu que ela sentasse pra ver.

A beleza da música não passou desapercebida, surpreendendo que os caras ainda tenham “a mão” pra compôr algo tão lindo como ela sentia saudades, desde os tempos de ARE YOU THERE?, do A NATURAL DISASTER, PRESSURE, do A FINE DAY TO EXIT e tantas outras…

Ela brincava que ia transformar essa história em filme e agora a via assim, presa na tela. A primeira cena mostrava o
quanto o mundo parou quando ela o viu pela primeira vez…

Um rosto que lhe parecia conhecido, sem que ela soubesse o porque, e um único olhar em sua direção tornou aquela noite em pura vontade de descobrir o por quê de tanto encanto…

Por coincidência (?) pouco depois, feito mágica ele apareceu do seu lado e ela viu seu sorriso pela primeira vez e de tão perfeito que era, ela descobriu que era seu caminho fazer aquele sorriso sorrir ainda mais! O simples som da sua voz e o jeito que ele fumava seu cigarro com a mão no bolso e o pé na parede aumentaram o tal do encanto, apesar dela sentir que era mais do que isso.

“Suddenly, life has new meaning,
Suddenly, feelings in being”
, cantava VINCE, numa trilha sonora que a faria pensar nele acordada, ou sonhar com ele
dormindo…

Naquele lugar, eles se perderam de vista, e quando ela, uma das pessoas mais descrentes do planeta, esta convencida de
que não era pra ser, eles se reencontraram, porque parecia que até a Noite não queria que aquilo acabasse. Ela fez o que se propôs e fez de tudo pra ele sorrir seu sorriso lindo muitas outras vezes. Cada coisa que descobria a seu respeito era razão pra certeza que ela tinha que não poderia perdê-lo de vista nunca mais!

Sorriso maior surgiu em seu rosto num dos momentos em que ele falava e ela soube de onde o conhecia…Ela desenhou seu rosto em sua mente no seu tempo de infância, quando imaginava como poderia ser o amor da vida…

E o resto daquele filme VINCE também cantou:

“Suddenly, don´t have to be afraid,
Suddenly, all falls into place,
And you shine inside,
And love,
Steals my mind like the sunrise,
Dreaming light of the sunrise”.

Amor à primeira vista? Sim, com ele, ela aprendeu que existe… E a segunda e a terceira vistas, quando ela temeu que tudo
pudesse se desmanchar em ilusão? Foram feitas de amor também…

“I feel you, but I don´t really know you,
I dreamed of you from the moment I saw you”.

Aquele era seu filme favorito, e as frases finais da música não poderiam ser mais verdadeiras:

“The light is true,
The light is you”
. A TV se apagou sozinha e a luz do quarto se acendeu assim também.

Silêncio, Mas…

– Espera aí! O quê é isso tudo??? – se assustou.

A parede de seu quarto estava cheia de pequenas molduras com fotos de cima à baixo. Fotos que nunca foram tiradas, a não ser por sua mente, e essas, não eram como o filme que ela tinha acabado de ver. Eram imagens de desentendimentos que tiveram. Por motivos pequenos e mundanos, desses que podem afastar, estragar tudo.

Assim como a música de seu amado ANATHEMA, por vezes é tão etérea que parece feita por anjos, ela sempre imaginou que assim devia ser o amor também. Coisa de anjo, grande demais pra caber numa natureza tão pequena como a nossa, que é meramente humana…Por isso mesmo tão delicada de ser compreendida, porque ocupa todos os espaços e muda vidas inteiras, é que tudo que é mundano pode envená-la…

Medo, dúvida, maiores fantasmas sempre tentando mesmo os que amam de verdade… Seu ar começou a faltar e ela começou a derrubar
aquelas molduras uma a uma da parede, porque o medo de perdê-lo era tão real quanto as fotos que podia tocar! No entanto, cada uma se transformava em poeira com o toque de suas mãos e em desespero, ela torcia pra que em algum lugar estivesse o número 4, pra que outra música começasse e lhe trouxesse de volta a paz, e respostas e ar…

– Número 4, número 4, cadê você????

Procurou por todos os cantos, revirou gavetas, armários, olhou para a janela, tentou ligar a TV e o silêncio a devorava aos poucos.
Se preparava pra ceder ao cansaço e à falta de ar, quando levantou os olhos pra parede às suas costas. No centro dela, solitária
estava uma outra moldura
, com a imagem dele exatamente como ela o viu pela primeira vez…
Por um momento, ela teve receio de tocá-la, porque aquela imagem não podia reduzir-se a pó, NÃO PODIA!

Instintivamente, ela a pegou, mas com o cuidado de quem carrega cristais. A moldura continuou intacta e ela passou a mão também
com cuidado, como se quisesse tocar seu rosto… A imagem foi sumindo, se apagando ao movimento dos dedos e antes que ela pudesse se assustar…

…um número 4 apareceu atrás do pequeno vidro!

(CONTINUA…)
___________________________

O quê vai acontecer com ela???
Realmente, eu não sei!!!

Veja na próxima edição, quando continua essa estranha Resenha de


WE´RE HERE BECAUSE WE´RE HERE, um maravilhoso trabalho de ANATHEMA!

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5 thoughts on “PRA LER À NOITE…

  1. Eu li essa resenha enquanto ouvia esse cd e agora falo…
    quero muito ler o resto =)

    Das três primeiras faixas “Summernight Horizon” é simplesmente de me deixar sem palavras, mas não é a melhor do cd…

    A melhor te conto depois porque ainda vai aparecer na resenha..

    Beijos

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